Wanda Engel

Por WandaEngel - 02/12/2019

*Artigo publicado originalmente no meu Linkedin

A situação que vivemos hoje no Brasil me lembra a metáfora do sapo. Dizem que se colocarmos um sapo dentro de uma panela com água fervendo, ele pula imediatamente para fora. Caso o coloquemos em água morna, ele vai se acostumando, se distraindo, a água ferve e ele acaba morrendo cozido. O pobre sapo não percebe as mudanças graduais de temperatura e se ferra.

Nosso contexto é tão conturbado por uma miríade de acontecimentos graves ou bizarros que acabamos não percebendo e nos acostumando às pequenas transformações e nos ferramos.

Na área social, por exemplo, as mudanças ocorrem e as pessoas, distraídas, não percebem a gravidade da situação.

Vocês notaram, por exemplo, que acabaram com o ministério responsável por enfrentar nosso principal problema, o da pobreza e da desigualdade? O Ministério do Desenvolvimento Social foi transformado em Cidadania, onde se agregou, sem maiores explicações, a área de cultura.

Parece que esta área é tão mais charmosa, que não se fala mais sobre a pobreza.

Quando até o Fórum Econômico Mundial de Davos dá destaque especial à discussão sobre pobreza e desigualdade, porque seus membros, atentos que são, já perceberam as consequências econômicas deste fenômeno, no Brasil vivemos a fase da “proposta zero” para estas questões.

No decorrer das últimas décadas, governos de diferentes matizes tiveram o mérito de possibilitar a saída de milhões de brasileiros da situação de pobreza. Foram programas de transferência de renda (Rede de Proteção Social) que, por meio do Cadastro Único, possibilitaram a sua integração sob o guarda-chuva do Bolsa Família. Também tiveram importante papel, neste processo de promoção, as ações integradas de desenvolvimento humano local (Projeto Alvorada), as proposta de construção de “portas de saída” (Brasil sem Miséria) ou mesmo um trabalho intersetorial voltado para a primeira infância (Criança Feliz).

Hoje a temperatura social aumenta. Grande contingente de pobres retorna à sua condição original, em função da crise econômica e do desemprego. Retornam desiludidos e sem esperanças. E nada se faz. Vivemos um total vazio de propostas.

O jeito é pular desta panela e buscar outras alternativas. Se o governo federal e os estaduais parecem paralisados, resta-nos investir no poder local. Na verdade, federação e estados são meras abstrações que, tirando a função de cofinanciamento das ações municipais, têm um papel absolutamente secundário.

É no território concreto do município que as pessoas nascem, crescem, amam e fazem amor, constituem suas famílias, moram, trabalham, se deslocam, necessitam dos serviços públicos, matam e morrem.

As próximas eleições são a grande oportunidade para virar este jogo.

As perguntas básicas para os candidatos deveriam ser: Qual sua proposta para oferecer condições para que as famílias superem sua situação de pobreza? Como você pretende priorizar os mais pobres, nas políticas sociais (educação, saúde, assistência, cultura e esporte), econômicas e urbanas, diminuindo, assim a desigualdade? Como você propõe integrar as diferentes áreas de sua administração na busca do aumento de impacto das políticas de diminuição da pobreza? Enfim, como você pretende colocar as políticas voltadas para os mais pobres no centro de sua administração?

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