Wanda Engel

Por WandaEngel - 13/05/2020

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Criador: Bruno Kelly
Crédito: REUTERS

Muito já se falou sobre as consequências da pandemia nos grupos mais vulneráveis. Isto porque, apesar do caráter “democrático” do vírus, já constatamos que suas consequências, incluindo o grau morbidade, afetam mais cruelmente os grupos mais pobres e vulneráveis.

Aliás, um dos efeitos do vírus está sendo o de desvendar as condições de vida destes grupos que, até então, pareciam ser invisíveis ao olhar da sociedade em geral. 

Tais condições de vida incluem o desemprego, o subemprego ou a informalidade e, consequentemente, uma renda que não lhes garante sequer a própria subsistência, além da falta de acesso à previdência social. 

Vivendo em conglomerados urbanos densamente povoados, famílias numerosas habitam casas minúsculas, húmidas, sem ventilação, sem saneamento (água e esgoto), sem vias de acesso carroçáveis, nem praças públicas.

Sujeitos a um transporte coletivo precário e de péssima qualidade, vivem o horror da violência cotidiana e da exploração econômica (água, gás, transporte e tecnologia), exercida pelo poder local: tráfico de drogas ou milicianos.

Têm acesso a uma educação de baixa qualidade, em escolas carentes de infraestrutura, inclusive tecnológica. Seus professores e gestores, mal formados, sofrem, em geral, de problemas idênticos a de seus alunos e familiares.

A eles é oferecido um serviço de saúde pública deficitário, muitas vezes sucateado por gestões corruptas ou incompetentes.

É neste contexto multidimensional de carências que o vírus chega, “arrebentando”! 

Sem condições reais de isolamento, e sem contar com saneamento básico, acelera-se o contágio.  Seguem-se as dificuldades de acesso a hospitais, a testes, a respiradores, e a leitos de UTI. Multiplicam-se os óbitos, e os desafios para sepultar os entes queridos. 

No campo econômico, morrem os empregos, minguam as oportunidades de trabalho e renda, ressurge a fome, aprofunda-se a miséria. 

Por outro lado, o fechamento das escolas e a dificuldade que têm os sistemas públicos de implantar o ensino remoto, somado `as possíveis consequências socioemocionais da quarentena, tanto para professores quanto para alunos (perdas, violência doméstica, falta de dinheiro), atingem mais intensamente as escolas públicas, aumentando o fosso da desigualdade social.

Por todos estes motivos, torna-se fundamental agirmos na quarentena, para mitigar seus danos e planejarmos efetivamente o “day after” para as áreas de saúde, assistência e educação.

Na saúde, seria essencial priorizar o reforço e o aperfeiçoamento do SUS, este extraordinário bem público existente no Brasil e em apenas cinco outros países no mundo (Canadá, Dinamarca, Suécia, Espanha e Portugal).

Haveria também que reforçar o SUAS (Sistema Único de Assistência Social) e consolidar nossa rede de proteção social, especialmente através do Bolsa Família. O CadÚnico deveria ser o instrumento básico para transferência de renda, com a inclusão dos “barrados no mercado formal”: empregados informais e temporários, trabalhadores por conta própria e desempregados.  

Interessante constatar como na pandemia reforçou-se a importância da existência de redes de proteção informal, tanto entre os pobres, com a atuação de organizações locais, quanto entre as diferentes classes sociais, através do voluntariado e do investimento social privado (só o Itaú disponibilizou, com a urgência necessária, 1 Bi).

Enquanto o governo patinava no processo de prestação da ajuda monetária de R$ 600, exigindo o CPF do beneficiário, a rede informal já estava a postos, nas áreas mais pobres, para enfrentar as consequências do Covid.  Aliás, gostaria de entender por que o CPF, que deveria ser o número básico de identificação para as áreas econômica e social, é suspenso no caso de o portador não ter votado!!!!

Na área da educação, seria fundamental construir um novo calendário escolar; planejar o retorno, incluindo a realização de um teste diagnóstico para o atendimento às diferenças de aprendizagem; criar estratégias de apoio socioemocional para alunos, professores e famílias, além de implantar medidas de segurança sanitária. As estratégias do retorno às aulas deveriam ser intersetoriais, incluindo necessariamente as áreas de educação, assistência e saúde, além de cultura, esporte e lazer.

A mais importante proposta para este day after seria, entretanto, uma ação intencional e sistemática, dedicada ao fortalecimento de valores como igualdade, respeito ao diferente, solidariedade, colaboração, valorização da ciência, uso de evidências na formulação de políticas públicas, gestão pública voltada para resultados, com foco nos mais vulneráveis. 

Não podemos esquecer de que a “semente do mal”, que produz e reproduz a desigualdade, é uma visão de mundo que considera aquele que é diferente do padrão socialmente valorizado – homem, branco, jovem, saudável, cristão, rico, heterossexual – como inferior, merecendo por isto ser discriminado, excluído e, no limite, exterminado.


6 comentários em "O vírus e os vulneráveis"
  • Wanda Engel disse:

    Gilberto
    Adorei seu comentário. Concordo plenamente com ele. O “ponto de alavancagem” é sem dúvida a garantia de educação básica de qualidade. Tenho muita saudade do nosso tempo de prefeitura.

  • Wanda Engel Aduan disse:

    Luiza
    Concordo plenamente com seu comentário. Pressupostos como o da intersetorialidade e multissetorialidade, da governança colaborativa, da gestão para resultados (baseada em evidências), de políticas públicas voltadas prioritariamente para os mais pobres, deveriam servir de norte para políticas de estado.

  • Wanda Engel Aduan disse:

    Caro Ricardo
    Olhando a foto de hoje, o cenário parece ser muito negativo. Por outro lado, talvez por minha tendência ao otimismo, penso identificar algumas sementes de transformação no aumento da consciência da sociedade com relação ás consequências de nossa histórica desigualdade, no incremento da participação social, quer por meio do voluntariado, quer do investimento social privado, um certo despertar para a necessidade de um trabalho intersetorial para dar conta dos problemas sociais complexos, da revalorização da ciência. No campo político, após a perda de força da extrema esquerda parece estar havendo uma desqualificação da extrema direita, com a possibilidade de fortalecimento de propostas menos radicais. Enfim, pode ser que tanto sofrimento e tal custo social e econômico sirvam para alguma coisa.

  • Gilberto Ramos disse:

    Gostei do texto e reforcei a convicção que sem favorecermos a educação básica e melhorarmos a distribuição de renda não sairemos deste impasse social.

  • Luiza disse:

    Wanda, muito bom e oportuno o seu texto! Este é o momento de todos refletirmos sobre uma política pública integrada de atendimento à população carente de serviços de saúde, educação, bem estar social… que diminua as desigualdades sociais, tão grande em nosso país.
    Estas questões precisam ser tratadas sempre, como política de Estado, para que outras situações como esta, que estamos passando, não atinjam tanto a população.

  • ricardo tortorella disse:

    Muito bom Wanda, sempre pertinentes e oportunas suas proposições. De fato passou da hora de termos uma rede de proteção ampliada. E mudar alguns conceitos. Acho que a ausência de coordenação nesta crise, mais uma vez, faz com que perdemos uma grande oportunidade de debater e colocar em pratica muitas mudanças. Perdemos vidas, sofremos muito, saude, social, economia, educação…. gastamos muito, preço que ficara para próxima geração pagar…. e possivelmente não deixaremos nenhum legado na gestão desta crise…uma pena…

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