Wanda Engel

Por WandaEngel - 16/12/2020

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Divisão de Políticas Sociais

Após dois anos de atuação na Unidade de Pobreza, quando já estava expirando meu contrato, fui convidada para assumir a Divisão de Políticas Sociais, que também fazia parte do Setor de Desenvolvimento Social. Na estrutura vigente naquele momento, uma divisão correspondia ao terceiro nível na hierarquia institucional, e eu seria a primeira brasileira (mulher) a alçar a uma posição como aquela.

Esta mudança profissional foi tema de algumas notícias na imprensa brasileira, incluindo uma reportagem em O Globo, que também citava a tentativa de organizar, em Alagoas, uma Parceria Público Privada Social, com a intenção de postular recursos de doação do BID.

Como já foi dito no episódio anterior, o Brasil não estaria no grupo dos países com acesso a doações. Na tentativa de formular uma nova visão da regra, estava defendendo, junto ao banco, o argumento de que, mesmo em um país de desenvolvimento médio, como o Brasil, havia unidades da federação, como o estado de Alagoas, cujos indicadores sociais e econômicos eram iguais ou piores do que os de “países pobres e altamente endividados”, para os quais era possível este tipo de operação. Infelizmente, mesmo contando com a anuência e o apoio do presidente do BID, Enrique Iglesias, não consegui “emplacar” esta ideia e a PPPS não se concretizou.

Assumir a Divisão de Políticas Sociais representava, sem dúvida, um verdadeiro incremento em meu status, tanto no nível concreto, quanto simbólico.

Como em muitas outras instituições, o BID seguia uma série de normas informais, identificadoras de status. O mais explícito era o tamanho da sala destinada ao ocupante do cargo e o número de janelas disponível.

Quando eu era apenas parte da equipe da Unidade de Pobreza, tinha uma sala com uma única janela, voltada para a rua. Durante um pequeno intervalo, que precedeu minha ida para a Divisão de Políticas Sociais, fui alocada em um espaço pequeno, com uma janela, voltada para o pátio interno.

Ao assumir a chefia da divisão, passei a trabalhar em uma sala ampla, com três janelas, com vista para a rua, equipada com mesa de reunião e muitas estantes. Ganhei também o direito de contratar uma assistente. Para esta função foi selecionada Elba Luna, uma excelente profissional argentina que se tornou minha amiga e sócia na aquisição de um carro.

Da Divisão de Políticas Sociais, constavam duas Unidades: Gênero e Inclusão Social. Esta última era responsável pelas questões ligadas aos afrodescendentes à população indígena, com muito maior ênfase para o segundo grupo, majoritário em muitos países da região.  Além destas Unidades, a Divisão incluía as equipes de saúde, desenvolvimento urbano e juventude/violência.

As Unidades de Pobreza e de Educação não faziam parte desta Divisão, pois estavam ligadas diretamente à chefia do Setor de Desenvolvimento Social (SDS). Na verdade, as razões desta estrutura tinham origem histórica, por conta de encarregados por estes temas que desejavam uma inserção direta com o chefe do setor. Em outras palavras, não havia nenhuma razão lógica por trás desta opção.

Minha equipe era formada por aproximadamente trinta profissionais, a maioria deles com doutorado em universidades top dos Estados Unidos, além de consistente experiência em sua área específica de atuação. Eram técnicos com reconhecimento internacional, como os brasileiros André Médici (Saúde), José Brackaz (Desenvolvimento Urbano) e Anna Maria Brasileiro (Mulher e Desenvolvimento), minha querida amiga e vizinha de sala.

Devo confessar que ganhei muito na convivência com este grupo seleto de profissionais, mas também sofri muito. Como já revelei anteriormente, meu “calcanhar de Aquiles” era o inglês. Ocorre que, no BID, espanhol e inglês eram línguas empregadas usualmente. Uma conversa poderia iniciar-se em espanhol e naturalmente mudar para o inglês. Assim, todas as vezes em que havia um confronto entra as minhas ideias e as deles, imediatamente começavam a se comunicar em inglês, possivelmente para reduzir meu “ímpeto argumentativo”. E muitas vezes conseguiam!

Reunião da equipe do Setor de Desenvolvimento Social do BID, incluindo a Divisão de Políticas Sociais

A Divisão de Políticas Sociais era responsável pela realização de estudos e pesquisas que embasassem a concepção de Estratégias Operacionais, nas áreas de sua competência.

Quando assumi, estava em processo de elaboração a Estratégia Operacional para Políticas de Saúde, em ação articulada com o Departamento de Países. Foi muito interessante participar daquele confronto entre uma visão mais teórica, dos membros da Divisão, e outra mais prática, da equipe do Departamento de Países.

Dentre os numerosos estudos, realizados em minha gestão, o que mais me envolveu, por se tratar de uma questão crucial para o contexto brasileiro, foi o que focalizou o tema da coesão social.

Coesão social

Por demanda da União Europeia (UE), a Divisão de Políticas Sociais iniciou, em 2005, um estudo sobre esta questão. Em março de 2004, o Conselho Europeu havia conceituado coesão social como sendo a capacidade de uma dada sociedade, para assegurar o bem estar de todos seus membros, minimizar as disparidades e evitar a polarização.

O grande interesse dos países da UE – o berço da política de bem-estar social – era verificar a correlação existente entre o nível de coesão e a capacidade  de assegurar as condições necessárias para a produção de bens comuns. Um outro fator de interesse era o processo de consolidação da própria EU, já ameaçado por ideias nacionalistas, que desembocariam, mais tarde, no BREXIT.

No BID, definíamos coesão social como sendo o conjunto de fatores que contribuem para o estabelecimento dos equilíbrios básicos entre os indivíduos de uma sociedade, manifestando-se através de seu grau de integração econômica, social, política e cultural.

A origem destas concepções poderia ser encontrada na Teoria do Capital Social.

O capital social era visto, com o produto de uma norma informal, baseada no respeito, na confiança e na solidariedade, capaz de promover a cooperação e o aumento da coesão do tecido social. Ou seja, o capital social teria a capacidade de gerar “externalidades positivas” em uma dada sociedade. Tudo de bom!

Ocorre que, segundo Fukuyama, além de gerar “externalidades positivas”, o capital social também poderia gerar “externalidades negativas”, especialmente em sociedades muito desiguais.

Nestas haveria uma tendência de reforçar o capital social no interior de grupos homogêneos, mas também de promover relações de estranhamento, falta de confiança e ausência de solidariedade entre grupos com características diferenciadas. Isto se expressaria através do preconceito mútuo, do desrespeito, da discriminação e da exclusão em relação ao que fosse percebido como “outro grupo”. O resultante desta “externalidade negativa” seria a fragmentação e, no limite, a polarização social.

Assim, um componente básico do processo de coesão/fragmentação social, em uma dada sociedade, seria seu sistema de distribuição de oportunidades. Sociedades com alto grau de desigualdade, produzido por estruturas econômicas, sociais, políticas e jurídicas que fomentassem a discriminação, por questões de gênero, raça, religião, nacionalidade, opção sexual e deficiência física ou mental, tenderiam a provocar externalidades negativas entre os grupos sociais, gerando fragmentação e polarização social.

É desesperador constatar como estamos vivenciando um processo de forte polarização, no Brasil e no mundo, reforçado, em parte, pelas redes sociais.

Como destaca o documentário O Dilema das Redes, o grande produto, comercializado pelas empresas do setor, é justamente o tempo de atenção do “usuário”.

Como a adesão a grupos de interesse (nosso grupo) e as controvérsias com relação ao outro grupo, fomentadas especialmente por fake News, vêm se mostrando excelentes instrumentos para capturar e fidelizar a atenção às redes, estas vêm investindo no reforço a tais antagonismos, fomentando a polarização.

No estudo sobre coesão social, tomou-se por base um conjunto de indicadores, associados, por um lado, a externalidades positivas – existência organizações sociais, funcionamento da justiça- e, por outro lado, a externalidades negativas – índices de desigualdade, pobreza e violência – para a criação um Índice de Coesão Social. Este índice foi, então, aplicado aos países da América Latina e Caribe.

Foram identificados, com altos índices de coesão social, Chile, Costa Rica e Uruguai. Dentre os de média coesão social estavam Argentina, Brasil e México, enquanto Peru, Paraguai e Bolívia constavam entre os de baixo índice. Este quadro estaria bastante diferente se o estudo fosse feito nos tempos atuais, com a possível queda de Chile, Brasil e Argentina.

A partir deste índice, foram estabelecidas correlações com diferentes aspectos da realidade econômica e social destes países.

Encontraram-se, então, altos níveis de correlação entre o índice de coesão social e: desenvolvimento sustentável, crescimento econômico, nível de competitividade, capacidade de inovação tecnológica e governabilidade democrática.

Em outras palavras, constatou-se que as condições para que uma sociedade funcionasse positivamente na produção de bens comuns, dependiam do nível de coesão de seu tecido social.

Há tempos, já se havia identificado uma relação entre o econômico e o social, no sentido das consequências sociais advindas dos problemas econômicos. O estudo sobre coesão social veio explicitar o processo reverso, ou seja, como um contexto social, caracterizado pela fragmentação ou polarização, pode contribuir para que uma sociedade perca sua capacidade de produzir, tanto o bem estar social, quanto a riqueza e o desenvolvimento.

A vida em Washington DC

Minha experiência em DC foi muito enriquecedora sob muitos pontos de vista. Profissionalmente, tive a oportunidade de produzir conhecimento sobre pobreza, desigualdade, suas causas e consequências, tomando por base o universo dos países da América Latina e Caribe, e em parceria com profissionais de altíssimo nível.

Por outro lado, a estrutura do BID, com unidades e equipes organizados setorialmente, dificultava em muito a introdução de uma visão mais sistêmica dos problemas, bem como de metodologias de ação de caráter intersetorial e multissetorial.

Assim, apesar da defesa sistemática e da produção de alguns papers sobre políticas integrais e integradas, este tema teve sempre pouquíssima repercussão no interior do BID.

A despeito do pouco êxito na disseminação de meus principais pontos de vista, os diálogos profissionais e pessoais com aquele time de craques era extremamente enriquecedor.

As ricas discussões ultrapassavam os limites institucionais e continuavam nos frequentes encontros, que reuniam, além dos colegas do BID (brasileiros, argentinos, bolivianos), amigos da Embaixada do Brasil, do Fundo Monetário Internacional, do Banco Mundial e da Organização Panamericana de Saúde (OPAS). As reuniões eram feitas frequentemente em minha casa, com jantares (eu adoro cozinhar) ou sessões de cinema.

Criamos um cineclube com DVDs do Netflix – que chegavam e eram devolvidos através dos correios – com sessões às sextas feiras. Além disto, eram organizados passeios pelos arredores ou piqueniques, principalmente na primavera, por ocasião do cherry blossom.

Washington em tempos de cherry blossom

Na área de cultura e lazer, a incrível programação disponível, que incluía os eventos do Kennedy Center, os fantásticos museus (gratuitos) do Smithsonian, os maravilhosos restaurantes, além da proximidade com Philadélfia e Nova York, representavam uma oportunidade ímpar de “enriquecimento da alma”.

Assim que cheguei em DC, não tinha a menor intenção de comprar um carro. Morávamos perto da estação de metrô de Foggy Botton, nas proximidades de Georgetown, o que nos dispensava da necessidade de um carro nos dias da semana. Para os programas do final de semana, sempre tínhamos os companheiros motorizados. Ocorre que meu amigo Martus Tavares, ex Ministro do Planejamento, e representante do Brasil no BID, havia comprado um SUV de sete lugares e, prestes a voltar para o Brasil, descobriu que não poderia importar um carro usado. Incrédulo, queria uma prova da proibição. A “prova” lhe foi apresentada. Era um decreto …. assinado por ele mesmo, no tempo em que era ministro. Decepção. Só lhe restava vender o carro antes de partir. Havia comprado por 11 mil dólares e o preço de mercado estava por volta de 4,5 mil. No dia em que deveria embarcar, me ofereceu por 5 mil. Comprei, em sociedade com minha assistente, e fui levá-lo ao aeroporto, já na condição de proprietária. O carro, com uma estranha cor de suco de uva, era o transporte oficial para passeios e compras da fantástica turma de amigas. Até Dona Ruth participou de um destes “roteiros de compras”.

A vida em DC parecia maravilhosa, até que ocorreu uma das maiores tragédias de minha existência.

A tragédia

Era 20 de novembro de 2004. Naquele dia, chegavam minha filha Daniela e minha neta Joana, para passar uma temporada comigo em DC. Quando já estávamos no estacionamento, recebo um telefonema de minha filha Flávia, anunciando a tragédia.

Meu filho Roberto havia falecido aos 30 anos de idade. Roberto era meu caçula. Biólogo, com doutorado em meio ambiente pela Universidade de Brasília, já era considerado um dos maiores especialistas em troca de carbono. Pesquisador da EMBRAPA, atuava também em grupos de pesquisa de Harvard e da UCLA.

Havia sido um menino irreverente que, desde jovem, cultivava, além de uma barbicha selvagem, um cabelo estranhíssimo, raspado dos lados e longo no topo, que lhe caía sobre o rosto, como uma cascata.

Possuía um fino humor e uma consistente cultura literária (foi ele quem me apresentou a Borges), musical e cinematográfica. Adorava cozinhar e comer, daí seus quilinhos a mais. No meu tempo de Brasília, morávamos e nos divertíamos juntos.

Era, há sete meses, pai dedicado de Nina, quando o coração o traiu. Virou nome de auditório na EMBRAPA Cerrado e eterna saudade em minha vida.

Tenho o prazer de cultivar sua memória, especialmente junto à nova geração, contando para meus netos seus inúmeros casos engraçados. Outro dia, minha neta Júlia me disse: queria muito ter conhecido o Robertinho, ele devia ser um cara muito divertido. Me senti realizada. Ele merece ser lembrado com muito humor e amor!

O seminário de políticas sociais

A exemplo do final de minha gestão na Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social e no Governo Federal, o encerramento de minha atuação na Divisão de Políticas Sociais foi marcado por um grande evento.

Parte do mandato daquela Divisão, na linha de disseminação do conhecimento, era a realização de um seminário internacional, envolvendo todas as equipes do campo social, com atuação na sede, em Washington, e nas representações do BID nos países membros.

Era uma importante oportunidade de diálogo entre profissionais do nível central e aqueles com o “pé na realidade” dos países.

A organização deste evento representou um grande desafio, pois deveria balancear espaços de troca de experiências e construção coletiva de conhecimento, com apresentações de especialistas, que pudessem oferecer instrumentos teóricos capazes de possibilitar avanços significativos.

O processo colaborativo de planejamento e execução foi bastante conflitante, representando uma “prova de fogo” para minhas deficiências linguísticas. Finalmente, o êxito acabou sendo assegurado pelo trabalho competente da equipe organizadora.

A aposentadoria

Como nos demais organismos internacionais, a aposentadoria para o staff do BID é mandatória aos 62 anos. A mesma regra não se aplica aos consultores, o que faz com que, seis meses após a aposentadoria, se possa retornar, nesta condição.

Pátio central da sede do BID em Washington

Assim, em 2006, tive de requerer minha aposentadoria. Tive é maneira de dizer, pois, apesar de adorar minha vida em Washington, já me perguntava: O que mesmo estou fazendo aqui?

Como não tinha nenhuma intenção de permanecer como consultora, e me sentia cheia de energia para continuar a atuar, comecei a considerar oportunidades de trabalho no Brasil.

Algum tempo antes, havia recebido a visita de Tomas Zinner, então presidente do Instituto Unibanco, com o convite para assumir a função de Superintendente Executiva daquela instituição.

Por outro lado, meu amigo Marcos de Morais me oferecia a direção da organização que havia criado, denominada Rukha.

Ambas as propostas representavam a necessidade de uma outra mudança de endereço, desta vez para São Paulo, onde se localizavam as sedes das duas instituições.

Estavam dadas as possibilidades. Restava-me decidir em qual organização eu iria trabalhar.

No próximo episódio, vamos falar sobre meu retorno ao terceiro setor, com a decisão de optar pelo Instituto Unibanco. Vamos abordar também a história desta instituição e os primeiros passos para a definição de novos rumos. Não percam!

 


4 comentários em "Episódio 2: Mudança de status"

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