Wanda Engel

Por WandaEngel - 12/08/2020

Brizolão De volta às origens Educação

É provável que a maior transformação em minha vida profissional tenha ocorrido em função da experiência como diretora do Centro Cultural Comunitário de São Cristóvão (CCCSC), conhecido como Brizolão da Mangueira.

Em 15 de março de 1983, Leonel Brizola assumiu, pela primeira vez, o governo do Estado do Rio de Janeiro, nomeando Darcy Ribeiro como Secretário de Educação.

Darcy se propunha a fazer uma grande revolução na educação do Rio, através do Plano Especial de Educação (PEE). A primeira iniciativa deste plano foi a criação do Centro Cultural Comunitário de São Cristóvão, instalado em uma unidade de formação de professores, pertencente à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ), que funcionava próximo ao Complexo da Mangueira. A FAPERJ seria responsável pela administração daquela primeira unidade, o que representava uma certa autonomia, em relação à Secretaria de Educação, no que se refere à gestão financeira e de recursos humanos.

A inspiração para esta iniciativa era a Escola Parque, criada na Bahia por Anísio Teixeira, e destinada a complementar a escolaridade de alunos da rede pública.

Iniciou-se, então, um processo de mobilização de professores que desejassem participar daquela experiência. Foram feitas apresentações da proposta em escolas do entorno da FAPERJ e em turmas de pedagogia e licenciatura da UERJ.

Como o interesse era grande, foi iniciado um processo de seleção, por meio de entrevistas. A premissa defendida por Darcy Ribeiro era a de que o aspecto mais importante a ser considerado nesta seleção deveria ser a real disponibilidade de os professores abraçarem e beijarem as crianças, a despeito de sua aparência e de suas condições de higiene pessoal.

Aderiram ao “chamado” professores, desejosos de “viver o novo”: alguns com importante experiência na rede, outros recém formados, havendo até os que ainda estavam em processo de formação.  Parte era cedido pela Secretaria Estadual de Educação, e os demais, contratados pela FAPERJ.

Além de professores, foram admitidos agentes comunitários – jovens moradores do Complexo da Mangueira, com alguma experiência em projetos de artes ou de esporte que, além de desenvolverem ações educativas, atuavam como ponte entre a instituição e a comunidade. A contribuição destes agentes foi inestimável para o êxito da proposta. Vale destacar que a autonomia administrativa e financeira do Centro, em relação à Secretaria de Educação permitia que fossem implantadas inovações como esta.

A equipe, assim formada, participou da elaboração de uma proposta pedagógica inicial, tomando, como ponto de partida, uma descrição sucinta do que teria sido a Escola Parque de Anísio Teixeira, em Salvador. Daí surgiram estratégias para o ensino da matemática (Desafios e Jogos), ciências (Oficina da Natureza), língua portuguesa e alfabetização (Oficina da Palavra), artes plásticas, teatro e música, além de educação física.

Para cada uma destas áreas foram montadas salas-ambiente, muito bem equipadas (pelo menos no início), onde não faltava material pedagógico de primeira linha, incluindo microscópios, herbários, instrumentos musicais e esportivos.

O CCCSC foi inaugurado em 12 de outubro de 1983, Dia da Criança, com grande festa. Em seu discurso, o governador Leonel Brizola ressaltou: “Meninos da Mangueira, este Centro pertence a vocês!” No dia seguinte o espaço havia sido “esvaziado” de tudo que pudesse ser carregado pelos meninos. Afinal, foi dito que tudo era deles!

Neste primeiro momento, o grupo diretor, contratado pela FAPERJ, era formado por uma médica e algumas sociólogas, muitas delas vítimas de tortura, no período da ditadura, sem experiência nem formação na área educacional.

Em novembro, por conta de minha tese de mestrado, fui chamada para conversar com a equipe de direção. A médica-diretora iniciou a entrevista dizendo que, na véspera, sonhara que o Centro se incendiava e ela não sabia se deveria ficar triste ou contente. Na verdade, estavam todos muito perdidos.

Aceitei, sem pestanejar, o convite para aquela experiência que representou, para mim, um grande embate entre teoria e prática.

Lá estava eu, munida de consistente experiência, como docente e supervisora pedagógica, credenciada por uma razoável formação teórica, obtida no mestrado em educação, e legitimada pelo poder que o cargo de diretora me conferia. A experiência de meu primeiro dia foi um “trailer” do que seriam meus próximos anos naquela iniciativa.

Havia resolvido percorrer todas as dependências do Centro e me apresentar para as turmas, quando avistei, no topo de uma mangueira, um menino, de aproximadamente seis anos, colhendo e comendo mangas totalmente verdes. Preocupada com uma possível queda fatal, ou com uma consequente dor de barriga, pedi para que ele descesse, pois, além de ser perigoso, as mangas não deveriam ser comidas ainda verdes. “Quando estiverem maduras, assegurei, vamos colher e vocês poderão chupar à vontade”. Ele apenas olhou para baixo, me encarou, e retrucou: Vai tomar no seu c*! Foi aí que descobri que a teoria, na prática, poderia ser bem diferente!

Organizando o Centro

A proposta era complementar a escolaridade de cerca de 800 crianças e jovens, com idades entre 6 e 18 anos, moradoras do Complexo da Mangueira e matriculados (ou não) nas escolas do entorno. O primeiro desafio era que estas escolas funcionavam em horários muito diversificados, em 2 ou 3 turnos, o que fazia com que alunos entrassem e saíssem a toda hora do prédio e das salas.

O quebra-cabeça inicial foi o de organizar grupos de alunos por idade, escolaridade, interesse e horário da escola de origem, além de conceber uma estrutura de horário que desse conta da diversidade de situações.

Para estabelecer um controle mínimo, inclusive para a segurança das crianças que estavam sob nossa responsabilidade, e em função do grande quantitativo, da inexistência de uniforme e da multiplicidade de horários de entrada e saída, resolvemos produzir crachás de identificação. Assim, tinham direito de acesso às dependências, e às refeições, crianças e jovens que possuíssem o referido crachá. Após uma semana, percebemos que o número de atendidos no refeitório, aumentava a cada dia, pois novos crachás estavam sendo produzidos na comunidade. Resolvemos, então, credenciar o crachá, através de minha assinatura. O número continuou crescendo. Sacamos que minha assinatura também estava sendo falsificada nos falsos crachás, produzidos aos borbotões! Haja criatividade e rapidez na resposta!!!!!

Começamos, então um processo mais amplo de definição de estratégias de gestão e de governança, além da concepção de novas estruturas de funcionamento. Na falta de uma proposta mais consistente do próprio Programa Especial de Educação, tínhamos uma certa liberdade para criar, o que era muito animador.

Em termos de gestão, eu dividia a direção com um diretor administrativo. Na proposta de governança, o traço mais marcante era o caráter participativo da tomada de decisões. Mensalmente, havia uma Reunião Geral em que eram discutidas e decididas as principais questões institucionais.

Vale lembrar que, neste período, se iniciava o processo de democratização do país e todos tinham ânsias de participação. Nestas verdadeiras “assembleias gerais”, se fosse permitido, seria discutida até a marca do papel higiênico a ser comprado. Havia uma verdadeira crença no poder da participação como gerador de comprometimento e de efetiva ação coletiva, o que nem sempre se confirmava. Ou seja, o processo era desgastante, demorado, mas nem sempre efetivo, em termos do cumprimento das decisões tomadas coletivamente.

Como novas estruturas de funcionamento, foram criados dois núcleos de apoio aos profissionais: um pedagógico e outro socioemocional. Ambos promoviam encontros quinzenais de forma alternada.

Dos encontros pedagógicos, voltados para a análise da prática docente, para o planejamento e para a avaliação do processo e dos resultados, participavam professores de uma mesma disciplina, a exemplo dos Centros de Estudo do Instituto de Educação, já abordados anteriormente.

Por outro lado, as reuniões de apoio socioemocional envolviam grupos interdisciplinares de professores e agentes comunitários, além de profissionais de apoio (merendeiras, faxineiras, porteiro), considerados, todos, importantes agentes educacionais. Estas reuniões eram coordenadas por uma psicóloga e uma socióloga.

A proposta era a de tornar o Centro uma unidade educativa integrada, enfatizando o papel educacional de cada profissional que nele trabalhava. Era impressionante verificar como atuavam, no contato cotidiano, especialmente as merendeiras, muito valorizadas, por lidarem com o objeto de desejo dos meninos: uma boa refeição!

Estes núcleos tiveram um papel importantíssimo, como instrumento de aprendizagem colaborativa, não somente na concepção e implantação da proposta pedagógica, como também, no desenvolvimento de habilidades que nos permitissem lidar com o conjunto de emoções (medo, raiva, compaixão, conflito, impotência, vulnerabilidade) inerentes a nosso trabalho.

Sem dispor das normas e sanções, características de uma escola regular, como avaliação e reprovação, professores e alunos pareciam estar mais expostos, despidos, sem defesas. Era fundamental compreender o que estava subjacente às atitudes daqueles meninos e desenvolver habilidades de empatia, de comunicação não violenta, de gestão de conflitos e, especialmente, de resiliência.

O primeiro grande sufoco

Um evento ilustrativo da inexperiência dos primeiros tempos foi a Festa de Natal de 1984.

No afã de estabelecer vínculos com a comunidade, resolvemos comemorar o Natal, oferecendo um almoço comunitário. Para isto fizemos uma parceria com o quartel do exército, localizado nas proximidades, para a preparação da comida, com alimentos fornecidos por nós.

Na véspera, todo o local já estava decorado por professores e alunos. No dia, chegamos todos muito cedo para as providências de última hora e… nos deparamos com uma fila de alguns quilômetros de extensão. O pânico foi crescendo à medida em que o tempo passava e nossos parceiros não chegavam com a refeição. Quando a comida chegou, e a distribuição finalmente começou, percebemos que a fila não parecia ter fim, pois os já servidos voltavam invariavelmente para o seu final.

O que encerrou o evento, já ao anoitecer, foram as panelas vazias, e tudo em volta arrasado: nós, a decoração e a ideia de conquistar a comunidade pelo estômago!

 

No próximo capítulo, ainda sobre o Brizolão da Mangueira, vamos enfocar a proposta pedagógica, elaborada por muitas mãos, mentes e emoções. Vamos apresentar a incrível experiência de alfabetização utilizando o samba supercampeão da Escola de Samba Estação Primeira da Mangueira, bem como as propostas inovadoras para diferentes áreas do conhecimento. Não percam!


2 comentários em "Episódio 5: O Brizolão da Mangueira: o confronto entre teoria e prática"
  • Jandira Correia Hamacher disse:

    Wanda, que bom voltar no tempo. Quanto aprendizado! Quantas reuniões intermináveis de quartas feiras. Quanta gente querida, competente e comprometida com a educação.
    Vendo o filme, na Netflix, Rosa e Momo com a Sophia Loren, lembrei que Momo poderia ter sido nosso aluno. Impossível não se emocionar. Vamos deixar passar esse pesadelo e marcar um grande encontro. Obrigada por tudo. Beijos.

    • Wanda Engel disse:

      Jandira, minha amiga
      Realmente foram tempos sofridos mas super realizadores. Tenho saudades. Vamos concretizar este encontro no pós pandemia. Beijo grande.

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