Wanda Engel

Por WandaEngel - 09/09/2020

De volta às origens Roda Viva Terceiro Setor Trajetória

A experiência na direção do Brizolão havia fortalecido, em mim, a percepção sobre a existência de uma grande fragmentação das iniciativas governamentais e não governamentais, bem como sobre a falta de continuidade das políticas públicas.

Crescia, então, minha crença na importância da integração de esforços, como estratégia fundamental, tanto para diminuir a fragmentação, quanto para aumentar o impacto e propiciar a sustentabilidade destas iniciativas. Afinal, se vários setores e atores participassem de uma mesma proposta, a substituição de um deles, como por exemplo do governo, não deveria ser suficiente para descontinuar todo o processo, uma vez que os demais parceiros poderiam garantir sua sustentabilidade.

Além disto, havia se consolidado a certeza de que era fundamental investir em crianças e jovens em situação de risco, antes que se concretizasse seu destino, em direção à morte precoce, e aumentasse a violência no seio da sociedade.

Assim, quando decidi conceber e implantar uma organização não governamental – o Roda Viva – já tinha clareza quanto ao foco prioritário – crianças e jovens vulneráveis – e quanto à estratégia básica de ação – a criação de parcerias. O próprio nome da organização já indicava estas escolhas.

Bastava, então, “arregaçar as mangas”, identificar parceiros e conseguir os insumos básicos para iniciar a empreitada.

Naquele exato momento, tomei conhecimento, através de Denise Menegale, da existência de uma outra iniciativa, também voltada ao estabelecimento de parcerias, em torno de problemas ligados à pobreza e à desigualdade. Denise, querida amiga e colega de mestrado, estava cursando o doutorado na Columbia University, e havia sido convidada a fazer parte daquela iniciativa. A proposta daria origem ao Synergos Institute, com sede em Nova York, que se tornaria o principal parceiro do Roda Viva.

Fundado por Peggy Dulany, na mesma época em que se criava o Roda Viva, o Synergos passou a ser uma espécie de nossa “alma gêmea

organizacional”. Peggy, nascida Margareth Rockfeller, filha de David Rockfeller, era, e continua sendo, um ser humano especial. Aos dezoito anos, aluna de Harvard, tinha vindo ao Rio para participar de uma pesquisa antropológica sobre favelas cariocas. Seus campos de análise eram as comunidades do Jacarezinho e de Nova Brasília. Tratava-se de uma pesquisa etnográfica participativa que tinha, como princípio, a necessidade de se estreitar, ao máximo, a convivência com o universo pesquisado. Isto fez com que Peggy decidisse morar no Jacarezinho, em um quarto da casa de uma família. Estava nesta situação, há mais de seis meses, quando, ao voltar do trabalho, deparou-se com a Kombi de um jornal, oferecendo uma recompensa para quem revelasse o local de moradia de uma Rockfeller. Apavorada, pegou o primeiro ônibus para a rodoviária, embarcando para São Paulo, e de lá para Nova York. Já em NY, não hesitou em abdicar do sobrenome paterno, passando a utilizar apenas o da mãe – Dulany. Desde então, dedica-se ao trabalho social, especialmente como presidente do Synergos, que atua na construção de parcerias, para enfrentar o problema da pobreza e da desigualdade, em mais de 30 países, em todo o mundo.

Em 1987, portanto, já havia sido identificado um foco (crianças e adolescentes em risco social), uma estratégia de atuação (a criação de parcerias), e um parceiro internacional (o Synergos Institute). Assim, faltavam “apenas” os parceiros locais, os recursos humanos, o local de funcionamento e os recursos financeiros (Elementar, meu caro Watson!).

O Synergos Institute

O Synergos teve um papel fundamental em toda história do Roda Viva. Denise Menegale passou a fazer parte da equipe de NY, o que incrementou ainda mais a parceria. Note-se que o Synergos jamais assumiu diretamente o financiamento do Rxdszoda Viva, mas nos supria de conhecimentos sobre planejamento, gestão e captação de recursos. Foi sempre nosso parceiro técnico e “emocional”. Abriu muitas portas e era um avalista de nosso trabalho, fortalecendo laços de confiança com parceiros nacionais e internacionais.

Graças ao Synergos, estreitamos relações com organizações não governamentais especialmente da América Latina (Equador, Argentina e México) e da África (Zimbabwe, África do Sul e Namíbia).

Reunião com grupos Zulus no sul de Zimbabwe

Parceiros locais e recursos humanos

O Roda Viva foi pensado, inicialmente, como uma rede de parceiros, com atuação em diferentes áreas (assistência, educação, saúde, justiça, cultura) e em diversos setores (governo, sociedade civil, organizações de base comunitária), todos com o foco na questão da criança e adolescente em situação de risco.

Com base nestes critérios, foram mobilizadas as Secretarias de Educação (estado e município), a Fundação Nacional de Bem Estar do Menor (FUNABEM), a Fundação Estadual de Bem Estar do Menor (FEBEM), a Secretaria Estadual e Municipal de Assistência Social, o Instituto de Educação e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), além de organizações não governamentais e de lideranças comunitárias.

Após este intenso trabalho de mobilização, ficou acertado que UERJ, FUNABEM, FEBEM, Instituto de Educação e Secretaria Estadual de Educação cederiam parte da carga horária de um de seus profissionais, para atuar na equipe do Roda Viva. Já tínhamos, portanto, a contribuição sistemática de cinco pessoas, sem ônus financeiro para a instituição.

À procura de um local

O local inicialmente cedido para o Roda Viva foi uma pequena sala, parte da biblioteca do Instituto de Educação (sempre ele!). Quando me tornei docente da UERJ, esta não somente alocou parte de minha carga horária no projeto, como cedeu um conjunto de duas salas, no décimo segundo andar, onde funcionava a Faculdade de Educação.

O ponto era absolutamente prático, pois me permitia reunir, em um mesmo local, minhas atividades acadêmicas e de “ongueira”, além de ser estratégico, por possibilitar o envolvimento de estudantes de magistério, com a questão das crianças e jovens vulneráveis, no momento de sua própria formação.

Os recursos financeiros

O primeiro recurso financeiro veio através de um apoio da Fundação Ford, e se destinava apenas à aquisição de equipamentos. Como o Roda Viva havia sido pensado como uma rede, não dispunha de CNPJ para receber tais recursos. Foi necessário, então, que uma das organizações parceiras se dispusesse a receber e gerenciar os recursos para que pudéssemos dispor daquele financiamento.

Uma outra importante oportunidade de apoio financeiro ocorreu quando fui selecionada como “fellow da Ashoka”. Tratava-se de uma importante iniciativa, destinada a financiar empreendedores sociais. A Ashoka não apoiava projetos, mas pessoas que demonstrassem condições para empreender socialmente. No ano de 1988, fui escolhida em um processo que também selecionou Chico Mendes, assassinado alguns meses depois, e Raul Jungmann, que veio a ser ministro de Desenvolvimento Agrário no governo de Fernando Henrique Cardoso e Ministro da Defesa no governo Temer. Com isto, eu fazia jus a uma bolsa mensal, no valor de U$ 500, que era totalmente investida no funcionamento do Roda Viva, incluindo o pagamento de uma secretária e de uma faxineira, além das despesas administrativas.

Com estas condições básicas garantidas, já podíamos organizar o lançamento do Roda Viva, para a qual queríamos contar, nada mais, nada menos, do que com a participação de Paulo Freire.

O lançamento do Roda Viva

Quando soube do retorno ao Brasil deste grande educador, resolvi convidá-lo para ser o padrinho do Roda Viva e, nesta condição, proferir uma aula magna na Cerimônia de Lançamento.

Mesmo pelo telefone, consegui que a secretária de Paulo Freire marcasse um encontro dele comigo, em sua casa, no Alto Pinheiros, em São Paulo. Como estava envolvido em uma entrevista para a composição de um livro, tive de esperar algum tempo na antessala. De tempos em tempos aparecia uma pessoa oferecendo algo em um copinho de estanho. Resolvi aceitar e descobri que se tratava de cachaça (da boa). Assim, depois de algum tempo de espera, e muitas doses de cachaça, ele finalmente me recebeu.

A conversa girou em torno das características da instituição que estava sendo criada e do processo de planejamento, que vinha sendo adotado (na época uma novidade). Este processo começava com o desenho do cenário futuro desejado, para somente depois realizar o diagnóstico da realidade. Desta forma, a análise da realidade, informada pelo sonho, seria capaz de perceber mais claramente a dinâmica de forças, positivas e negativas, relacionadas a este futuro desejado. O planejamento destinava-se, então, a conceber estratégias de fortalecimento das forças positivas e de neutralização das negativas. Deveria, portanto, iniciar-se com um pé bem fincado no sonho para, somente depois, colocar um outro pé na dinâmica da realidade.

Neste momento Paulo Freire me interrompeu para defender a necessidade de um terceiro pé de sustentação. Para ele o terceiro componente seria “uma certa dose de loucura”. Isto porque, dizia ele, toda proposta transformadora necessitaria de um pouco de insanidade que nos permitisse fazer uma verdadeira “aposta no imponderável”.

Após um longo e divertido papo, e muitos outros “copinhos de estanho”, Paulo Freire aceitou ser o padrinho do Roda Viva e participar do seminário de lançamento, discutindo o papel do professor na luta contra a desigualdade.

O evento de Lançamento do Projeto Roda Viva, envolveu mais de 600 pessoas. Consistia em uma palestra inicial de Paulo Freire, seguida de um segundo momento, em que grupos interdisciplinares discutiam as ideias apresentadas e propunham questionamentos. Após um intervalo, ele retornava à plenária para, em um terceiro bloco, responder às questões formuladas pelos grupos. Sucesso absoluto, documentado no primeiro número do Jornal do Roda Viva. Estávamos começando com o pé direito!

A viagem inaugural a NY

Posto o bloco na rua, iniciou-se um processo de consolidação do planejamento, com a criação de grupos de trabalho por área de atuação – educação, saúde, proteção, justiça e cultura – que envolviam aproximadamente 30 organizações (governamentais, não governamentais, incluindo as comunitárias).

Como parte da ação conjunta com o Synergos, foi organizado um encontro internacional de organizações parceiras, com o objetivo de troca de experiências. O encontro previa a participação subsidiada (passagem e estadia) de dois representantes do Roda Viva. Com o objetivo de reforçar a proposta da rede, consegui que a Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio de Janeiro (FAPERJ) financiasse a participação de outros dez membros.

Saímos, então, em uma caravana de 12 pessoas, incluindo empresários com atuação social, como meu saudoso amigo Geraldo Jordão, representantes de órgãos governamentais, diretores de ONGs e líderes comunitários. Passando por NY, nos dirigimos para Tarrytown, onde permaneceríamos por uma semana, na propriedade da família Rockfeller, discutindo pobreza e desigualdade.

Tudo parecia um pouco surreal: a diversidade do grupo e o local de destino, pareciam incongruentes com o tema central daquele evento (pobreza e desigualdade). Já na chegada, no aeroporto JFK, uma limusine nos esperava. Soube depois que era o mais barato meio de transporte disponível para grupos, mas a simbologia daquele carro enorme causou um primeiro choque. A limusine dispunha de um sistema elétrico para controle dos vidros das janelas, o que era uma grande novidade naquela época. Com isto, apesar do frio enregelante (era janeiro), um jovem líder comunitário não se cansava de abrir e fechar as janelas.

A propriedade da família Rockfeller, em Tarrytown, era, como se pode supor, deslumbrante, com campos verdejantes, pontilhados de belas e exóticas árvores. O prédio da “play house”, onde se realizava o encontro, dispunha de belíssimos salões, piscina olímpica aquecida, campos de tênis e sala de boliche. A antiga casa de Nelson Rockfeller, transformada em museu, também parte da propriedade, tinha, na área externa e em seu interior, um inacreditável acervo de arte, incluindo muitas obras de Picasso, Calder e Maillol.

Talvez tenha sido a ocasião em que vivi, da forma mais concreta e radical, uma experiência que reunia os pólos extremos da desigualdade. Apesar de estarem todos felicíssimos, se sentindo prestigiados por aquela oportunidade, partilhando experiências com outros grupos, meu desconforto com aquele contraste foi crescendo a tal ponto que tive de me controlar para conter um acesso de choro.

Piscina da Play House e acervo de arte da propriedade da família Rockfeller em Tarrytown.

E agora, José?

Finda a festa de lançamento e a viagem inaugural, era preciso viabilizar os recursos financeiros para o efetivo funcionamento do Roda Viva.

Uma ONG não existe sem financiamento externo. Afinal se trata de uma organização sem fins lucrativos. Houve até um período em que os órgãos de apoio acreditavam que, ao invés de financiar as atividades de caráter social de uma ONG, o importante seria investir na criação de estratégias econômicas que garantissem sua sustentabilidade.

Seguindo esta orientação, as organizações saíram por aí abrindo negócios, como os de produção de móveis ou de camisetas, na esperança de se manterem com os lucros daí advindos. Em muitos casos, os próprios beneficiários passaram a ser envolvidos na produção, tornando-se “empregados de baixo custo”. Além disto, a falta de experiência e de competência para o negócio, levava a maioria destas “empresas sociais” à falência.

Se retirarmos da lista institutos e fundações empresariais ou familiares que, em alguns casos, dispõem de um fundo patrimonial, todas as demais ONGs vivem às expensas de algum financiador, governamental, privado ou internacional.

O enorme desafio passou a ser, então, consolidar a concepção do Roda Viva, respondendo à célebre questão – Existirmos, a que será que se destina? – e buscar fontes de financiamento que permitissem transformar o sonho em realidade.

No próximo episódio, o tema continua sendo o Roda Viva. Nele vamos tratar das áreas de atuação desta ONG e de seus principais projetos – Ecologia Vai à Escola e InterAção. Não percam!


3 comentários em "Episódio 9: A criação do Roda Viva"

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