Wanda Engel

Por WandaEngel - 29/07/2020

IE Instituto de Educação Magistério

O Instituto de Educação do Rio de Janeiro (IE) e os demais cursos de formação de professores – Carmela Dutra, Inácio Azevedo Amaral, Heitor Lira e Sara Kubitschek – foram, sem dúvida, escolas-modelo na formação de professores de Educação Fundamental I (antigo primário) até meados da década de 70.

Reconheço que é bastante controversa a ideia de “escolas públicas-modelo”, capazes de garantir uma educação de excelência para alunos com maiores aptidões e habilidades. Firma-se, inclusive o conceito de que um ensino público de qualidade para poucos não é um ensino público de qualidade. Neste sentido não haveria como privilegiar esta ou aquela unidade de ensino, em detrimento de outras e muito menos ter processos seletivos para nelas ingressar.

Minha experiência particular leva-me a pensar que, se não fosse a existência de uma escola nos padrões do Instituto de Educação, claramente impossíveis de se expandir à toda uma rede pública, eu não teria possibilidades de desenvolver plenamente meu potencial.

O decréscimo da importância das escolas normais, no processo de formação docente, iniciou-se com a substituição do critério de seleção, que deixou de ser por desempenho e passou a ser pela condição socioeconômica do postulante. Prosseguiu com a supressão do direito ao ingresso direto no magistério público, e se completou com a exigência de formação universitária para professores do ensino fundamental I, que passou a ser função dos cursos de pedagogia.

Sem querer ser saudosista (e já sendo), é impressionante o contraste entre a atual formação de professores de fundamental I, nos cursos de pedagogia, e a anteriormente oferecida nos cursos normais. A exigência da formação, em nível superior, a cargo dos cursos de pedagogia, representou substantivo fator para esta mudança. Infelizmente para pior.

Para início de conversa, a maioria dos professores universitários não possuía experiência prática no magistério deste grau, o que não acontecia nos cursos normais. Assim, se analisarmos o currículo dos cursos de pedagogia, constataremos uma ênfase exagerada nas disciplinas “teóricas” (história da Educação, Sociologia da Educação, Filosofia da Educação), em detrimento das práticas.

Por outro lado, os cursos de pedagogia dedicam-se à formação de uma grande variedade de profissionais, incluindo, além do magistério, nos níveis de educação infantil e EFI, pedagogos para empresas, educadores sociais, educadores de jovens e adultos, dentre outros. Formam para tudo e acabam não formando para nada. Em geral, para disciplinas como didática, metodologias específicas ou alfabetização, são atribuídas cargas horárias reduzidas, às vezes ministradas em um único semestre.

Como se formava um professor no Curso Normal do IE

A formação do professor se iniciava no primeiro ano do curso normal. Nesta etapa, apesar de predominarem as disciplinas de formação geral, ao lado de alguns fundamentos da educação, já existia a área de didática geral, que partia da observação e posterior análise da prática docente. Isto acontecia especialmente nas unidades de educação infantil (jardim de infância) e de ensino fundamental I (primário) existentes no próprio IE. Tais unidades serviam como “escolas de demonstração” e as observações eram usadas como insumos para uma articulação entre teoria e prática docente. Os professores destas unidades eram selecionados dentre os melhores da rede pública, o que propiciava uma boa qualidade às práticas observadas.

Turma 1102 do primeiro normal de 1961, iniciando a formação docente. Posso ser encontrada na fileira sentada.

Na segunda série, as disciplinas da área de didática já eram em maior número, tanto a geral, quanto as metodologias específicas de: linguagem (com ênfase na alfabetização), matemática, ciências naturais e estudos sociais. Nesta etapa, além das observações, propunha-se uma prática docente pontual, em escolas da rede pública.

Na terceira série, completava-se a formação, com uma consistente carga horária de prática de ensino, sempre em escolas públicas, agora em uma turma específica, como auxiliar do professor regente.

No caso de minha série, devido à carência de professores na rede pública, foi organizado um “curso de férias”, com as disciplinas de formação geral e os fundamentos da educação, de forma a que pudéssemos assumir integralmente a regência de uma turma, em uma escola pública, na condição de “professorandas”. Nesta época, as escolas funcionavam de segunda a sábado, com uma folga durante a semana. No dia da folga, tínhamos aulas no IE. Nestas aulas eram analisados os problemas enfrentados e discutidas possíveis soluções, num perfeito diálogo entre teoria e prática. Além disto, em cada escola, havia uma “supervisora de professorandas”, encarregada de oferecer o suporte necessário.

Quando me formei, eu me sentia segura para assumir uma turma, tanto em termos dos conteúdos a serem ensinados, quanto em relação à didática e às metodologias a serem utilizadas.

Décadas depois, tive a oportunidade de conversar com Fernando Haddad, então Ministro da Educação, sobre formação de professores. Ele havia encomendado um levantamento bibliográfico de títulos referentes à didática geral e a metodologias específicas para o ensino fundamental. Fez questão de me mostrar uma estante onde estavam todos os livros encontrados. Não passavam de 30.

Muito além de conteúdo e metodologia

Além da formação geral e do desenvolvimento de habilidades docentes, o IE buscava desenvolver, em seus alunos, uma consistente base cultural que, além de conhecimentos em diferentes campos do saber, incluía normas, valores e significados. Esta base cultural comum deveria funcionar, tanto como identidade positiva para seus alunos, quanto para nortear sua atuação como futuro professor.

As normas, algumas consolidadas em um Regimento Interno, eram do conhecimento de todos e incluíam, desde não beber álcool, ou fumar nas dependências, até subir apenas pelas “escadas de subida” e descer pelas “escadas de descida”, não fazer bagunça nos corredores, não matar aula, não colar, cumprir horários, respeitar professores, inspetoras e autoridades, manter a escola limpa, usar uniformes (tradicional, “de gala” e de educação física), sempre limpos e bem passados (o “uniforme de gala” era o “tradicional”, incrementado com um par de luvas preso no cinto) e usar sempre uma “combinação”, como “roupa de baixo”.

Para garantir o cumprimento dessas normas, havia inspetoras em cada canto estratégico dos corredores, que se encarregavam de encaminhar as “infratoras” para o Gabinete do Diretor. E haja infratoras! Uma das infrações máximas era fumar cigarro (careta) nos banheiros. O grupo que cometia este “crime” era conhecido como “esquadrilha da fumaça”.

Quanto aos valores, eram reforçados os de esforço (tem de estudar!), mérito (os resultados serão reconhecidos e valorizados), respeito às autoridades constituídas (professores, inspetores, diretores), hospitalidade (recepção e apoio aos novos alunos), organização e participação (Grêmio Cultural Rui Barbosa), liberdade de expressão (Jornal O Tangará), importância das manifestações artísticas (biblioteca, discoteca, concursos de piano, montagem de peças teatrais, Coral Carlos Gomes), prática esportiva (participação em torneios estudantis), método científico (aulas experimentais em salas ambiente das ciências naturais), valor do coletivo, tradição e pátria, dentre outros.

Nada parecido com a forma de lidar com os valores de “pátria, família e tradição”, típica das correntes políticas ou religiosas conservadoras. Aliás, o IE era uma instituição efetivamente laica que, se não promovia, pelo menos não impedia o surgimento de movimentos de vanguarda.

A introjeção destas normas, valores e significados exigiam não apenas ações repressivas, como advertências e suspensões, como, principalmente, ações reforçadoras, através de símbolos e rituais.

A força dos símbolos e rituais                           

Tínhamos como símbolo as letras IE, formando um losango. Ele aparecia no escudo de nosso uniforme, que era, em si, um símbolo muito valorizado (“Vestida de azul e branco, trazendo um sorriso franco, no rostinho encantador…”). Estava também no centro de nossa bandeira, utilizada em todas as cerimônias internas e externas.

O uniforme (como o nome indica) era comum a todas as alunas, mas tinha algumas nuances. A blusa poderia ser de algodão ou de cambraia de linho e o sapato Vulcabrás, ou do tipo Oxford, vendido na Sapataria Polar. O extremo do chic era conjugar as duas peças do vestiário. Este era meu sonho de consumo inalcançável. Ocorre que uma amiga de minha mãe doou a blusa de cambraia de sua filha que se formara. A blusa era um pouco apertada, mas passei a noite “passando”, com esmero, meu objeto de desejo. Dia seguinte, lá estava eu, me achando, quando, ao passar pelo ginásio, veio em minha direção uma bola de vôlei (jogo que adorava mas que era péssima jogadora). Toda empolgada, rebati e… a blusa se rasgou em toda a extensão das costas! Quanto ao sapato da Polar, só tive dinheiro para comprá-lo ao final da terceira série, um pouco tarde demais. Serviu apenas para a Cerimônia do Adeus!  

Talvez o símbolo mais forte fosse o Hino do Instituto de Educação. Até hoje, após décadas, basta que se reúnam duas ex-alunas para que alguém comece a cantar: “Instituto fanal, cuja história, tradições e lauréis vem lembrar…”.

Entre os rituais mais importantes estava o de boas-vindas às novas alunas – a Cerimônia de Incorporação – que funcionava como reforço ao valor da hospitalidade, e ocorria no início de cada ano. Ao final do curso acontecia a “Festa do Adeus”, destinada à despedida das formandas daquela instituição histórica, reforçando o valor da tradição.

Cerimônia de incorporação com a presença de minha família – meu pai, minha mãe, minha avó, minha irmã – minha madrinha e sua filha, além de um amigo. Evento super valorizado!

Ambas aconteciam no belo pátio central, onde se destaca um imponente chafariz de pedra.

Na Cerimônia de Incorporação, formavam-se filas intercaladas de alunas do primeiro e do último ano. A partir de uma “ordem unida” viravam-se para se posicionarem face a face. As veteranas colocavam, no uniforme das novatas, o símbolo da primeira série (uma estrela com um traço embaixo). A partir deste momento as calouras passavam a ser normalistas e podiam contar com o “apadrinhamento” das alunas que as incorporavam.

Já na “Festa do Adeus”, as formandas colocavam, em uma urna, seu distintivo de terceira série. Eram fortes rituais que levavam às lágrimas alunas e familiares, reforçando o orgulho de ser parte daquela instituição milenar.

Uma importante estratégia de valorização do coletivo e dos símbolos da pátria era o “canto orfeônico”. Instituído no período do Estado Novo, sob a inspiração de Vila Lobos, o canto orfeônico era uma tradição no IE. Todas as turmas, de uma mesma série, tinham um horário comum, quando se concentravam no auditório para uma aula de canto.

O repertório do canto orfeônico incluía, desde hinos e cânones de autores nacionais, a música indígena. Com isto, conhecíamos a maioria dos hinos, incluindo o Nacional, da Bandeira, da Independência, do Exército, da Marinha, da Aeronáutica. Ufa! O pior é que nós adorávamos! Nesta época os símbolos nacionais, ou a própria ideia de pátria, ainda não haviam sido associados à ditadura militar nem, como atualmente, capturados pela extrema direita. Às vezes, frente a manifestações contra a democracia, tenho ganas de gritar: Devolvam meus símbolos!

Neste momento, você deve estar se perguntando: – “Mas, afinal, o que aconteceu com esta escola fantástica?” Bem, já mencionamos o decréscimo de sua importância no cenário da formação de professores. A primeira tentativa de soerguimento foi a experiência de criação de um Curso de Formação de Professores de Ensino Normal (CFPEN), articulado à Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), do qual fui aluna por algum tempo, mas que acabou sendo extinto.

Com a obrigatoriedade de formação universitária para professores de EFI, o IE se transformou em Instituto Superior de Educação do Rio de Janeiro (ISERJ), na condição de curso de pedagogia, ligado à Fundação de Apoio à Escola Técnica (FAETEC), órgão da Secretaria Estadual de Ciência Tecnologia e Inovação, sem vinculação direta com a secretaria de educação.

O processo parece incompreensível, e realmente foi. Uma escola com tradição milenar no campo da formação de professores (incluindo alfabetizadores!!!), por razões casuísticas desconhecidas, deixa de fazer parte do universo da secretaria de educação, orbitando no mundo da ciência e tecnologia. Mais uma vez, tenho ganas de gritar: Devolvam minha escola!

Para mim, o IE continua sendo um grande inspirador para minha vida profissional, especialmente em relação aos conhecimentos, valores e significados, ali transmitidos, e que tanto contribuíram para construir minha visão de mundo.

Devo confessar que tenho um sonho. Nele, o IE havia se torna um importante centro de formação de professores dos anos iniciais do ensino fundamental, com especialidade em educação infantil e alfabetização. Funciona como uma Escola Normal Superior, com as funções de ensino e pesquisa, e atua tanto na formação inicial, quanto na formação em serviço dos professores das redes públicas. Inclui também uma unidade de educação infantil e ensino fundamental, com a função de escola-demonstração de boas práticas. Enfm, é considerado um exemplo de política pública voltada a enfrentar o desafio da alfabetização na idade certa! Mas aí, a triste realidade me desperta.  

No episódio 4 vamos abordar os tempos de vida universitária em um ambiente de turbulência política, de construção da família, e da consolidação da formação profissional, através do mestrado em educação. Não percam!

 

 

 

 


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