Wanda Engel

Por WandaEngel - 22/07/2020

Educação IE Instituto de Educação

Finalmente, em 1957, eu também me tornei aluna do Instituto de Educação, considerada uma das melhores escolas públicas, exclusivamente feminina, do Rio de Janeiro, e objeto de desejo de nove entre dez famílias de classe média carioca.

A primeira razão para esta percepção era a excelência de seu corpo docente. Formado por professores de elite, autores de livros adotados em muitos estados, como Ari Quintella, Roberto Peixoto e Jairo Bezerra (Matemática), Vicente Tapajós (História), Maximiniano Gonçalves, Judith Paiva e Souza e Evanildo Bechara (Língua Portuguesa), Mário da Veiga Cabral (Geografia), Vicente Tapajós (História) Ernesto Faria (latim). Eles eram o verdadeiro “crème de la crème” do magistério.

A segunda razão era o fato de que as alunas do IE tinham acesso direto à docência, na rede pública de ensino do Distrito Federal, sem a necessidade de um concurso de seleção. Com isto, eu me tornei uma futura professora, com emprego garantido, aos 12 anos, quando ingressei naquele estabelecimento de ensino.

Em função destas circunstâncias, o acesso era concorridíssimo. Havia dois momentos em que se podia postular: para o curso “ginasial” (Fundamental II) e para o Curso Normal (Ensino Médio). O concurso para o ginasial era um pouco mais “apertado”, pois só eram previstas cerca de 90 vagas (3 turmas), às quais concorriam mais de 6 mil candidatas. Para o curso normal, eram previstas perto de 400 novas vagas, também disputadas por milhares de adolescentes.

A nota mínima, para ser considerada apta, era 5 em cada disciplina, mas só entravam as candidatas com as melhores notas. As demais eram consideradas “excedentes”. Todos os anos, familiares das “excedentes” faziam passeatas em frente ao Palácio do Catete e, invariavelmente, o próprio Presidente da República determinava a criação de novas vagas.

Graças ao já mencionado “capital de relações sociais”, minha mãe havia conseguido uma bolsa estudos para frequentar, após a conclusão do primário (EFI), o “curso de admissão” no Instituto Guanabara, considerado o melhor preparatório para o acesso ao IE.

Na foto da turma do Instituto Guanabara, eu posso ser encontrada à esquerda da primeira fila (ajoelhada)

Assim, ao final de 1955, concorri ao curso ginasial do IE, obtendo uma das melhores notas em matemática, mas sido reprovada em português. Nas vésperas desta prova tinha sofrido um acidente no banheiro de casa, com cortes profundos no joelho.

Concorrera também para o Colégio Pedro II, tendo alcançado o segundo lugar, entre milhares de candidatos. Esta façanha me propiciou a primeira participação em um programa de televisão (TV Tupi), para orgulho de minha família, dos amigos e vizinhos.

Ao final de 1956, concorri novamente ao IE, tendo conseguido um dos primeiros lugares, o que me garantiu ser parte da chamada “Turma 1”.

“Meritocracia” na veia

A meritocracia era vista como um princípio fundamental no IE. Assim como o desempenho inicial de uma aluna servia de base para sua “enturmação”, no momento da formatura, as notas durante o curso eram o critério utilizado para a escolha da escola onde se iria atuar como professora.

É importante destacar que o conceito de meritocracia, muito valorizado pelo mundo empresarial, parte da falsa premissa de que todos têm a mesma condição inicial e que aos mais talentosos e esforçados, são garantidas as melhores posições.

Esta ideia, apesar de aparentemente se contrapor aos privilégios de classe, raça, religião, opção sexual ou família de origem, acaba por gerar a falsa premissa de que a posição social dos indivíduos é fruto apenas de seus méritos pessoais.

Cria-se, assim, o mito de que todos, a despeito de suas condições originais, poderiam alcançar as mais elevadas posições sociais, dependendo apenas de suas competências e de seu esforço. Caso não se realize esta façanha, a culpa é do próprio indivíduo! Por outro lado, as pessoas que estão no topo da pirâmide, estão lá porque merecem!!!! Tudo “justificado”!

O IE nos fazia acreditar que fazíamos parte de uma sociedade homogênea com idênticas oportunidades, diferenciadas por nossos méritos pessoais, que se refletiam em um alto desempenho. Isto escondia uma dura realidade em que pobres e negros eram uma raridade naquela instituição.

Com isto, a Turma 1 era a preferida dos “professores catedráticos”. As cátedras eram comuns nas universidades, mas me parece, que o IE era uma das poucas exceções, entre as escolas públicas de ensino básico, em que este sistema era encontrado.

Turma 1 da terceira série ginasial de 1959, tendo sido identificada com o número 8. Note-se que apenas uma aluna não era branca.

O fato é que, na Turma 1, tive a oportunidade de contar, em meu processo de formação, com um grupo de professores de alto nível. Se tivesse de identificar a base de todo meu processo de desenvolvimento intelectual, esta estaria, sem dúvida, no Instituto de Educação do Rio de Janeiro.

Uma infraestrutura física de excelência

Além da equipe docente, o IE se destacava por suas fantásticas instalações. Funcionando em uma construção de estilo neocolonial, inaugurado em 1930, contava com salas- ambiente de química, física, biologia, geografia, artes (desenho e artes manuais); um complexo esportivo, que incluía piscina olímpica, quadra de esportes e pista de atletismo; além de um auditório para mais de mil pessoas, uma biblioteca fantástica e até uma discoteca.

Auditório principal do Instituto de Educação

Área da piscina olímpica

A discoteca, na verdade uma sala de música, era um pequeno auditório onde atuava uma professora, encarregada de apresentar para o público uma determinada peça musical clássica (compositor e sua obra, contexto histórico, principais movimentos e instrumentos), para, finalmente, “colocar o disco na vitrola”. Era meu local preferido para matar aula e a raiz de meu gosto por este tipo de música!

Tudo isto cercado de grande área externa arborizada, onde existia um “bar”, de fato uma lanchonete com doces maravilhosos.

O sistema de proteção social

Como a grande maioria das escolas públicas da década de 50, o IE dispunha de um instrumento de assistência social para suas alunas pobres, denominado Caixa Escolar. Contribuíam para a Caixa Escolar todas as estudantes com condições financeiras para tal e os recursos eram dirigidos para as mais pobres, a fim de subsidiar suas necessidades básicas.

Como entrar no IE dependia de uma boa formação prévia, que incluía um excelente (e caro) curso preparatório (curso de admissão), pode-se supor que, ao “mérito”, somava-se uma confortável situação sócio econômica. Assim, deveria haver uns 90% de alunas de classe média, contribuintes da caixa escolar e, no máximo, uns 10% de pobres como eu, que se beneficiavam deste instrumento de proteção social.

Com isto, os benefícios incluíam cesta básica, uniforme completo, material escolar (livros, cadernos e material complementar), dinheiro para transporte, tratamento médico e dentário, e até tickets para lanchar no bar.

Como eu e minha irmã éramos beneficiárias deste “sistema protetivo”, a vida de minha família melhorou muito durante os 7 anos em que fomos alunas do IE.

A associação entre educação e proteção social torna-se fundamental, quando se trata de membros de famílias pobres. Além da necessidade de se garantir a igualdade de oportunidades, através de uma escola de qualidade para todos, é fundamental que se ofereçam as condições básicas para que estas oportunidades possam ser aproveitadas.

É por isto que políticas de redução de pobreza, como as transferências condicionadas de renda, se caracterizam por associar o acesso à escola, e a frequência escolar, ao benefício das bolsas. Complementarmente, as próprias políticas educacionais precisam garantir as demais condições básicas, como transporte, merenda, uniforme e material pedagógico.

Esta ideia já parece estar clara no que se refere ao Ensino Fundamental, mas necessita ser consolidada com relação ao Ensino Médio e ao Ensino Superior.

Aos alunos do Ensino Médio, especialmente aqueles com defasagem idade série, deveriam também ser oferecidas oportunidades de acesso à renda, capazes de desestimular a evasão escolar. Os mais velhos, às vezes já com família constituída, abandonam a escola por qualquer oportunidade de renda, selando seu destino, rumo ao subemprego, desemprego ou envolvimento com atividades marginais. Estudo recente, coordenado por Ricardo Paes de Barros, mostra, entre outras coisas, que o país perde, com o aluno que evade, quatro vezes mais do que investe em sua escolaridade.

Já em nível universitário, as cotas deveriam vir acompanhadas de políticas de proteção social, garantidoras de uma renda mínima, bem como pela oferta de oportunidades educacionais complementares, capazes de superar os défcits de conteúdo, trazidos do ensino básico.

Os serviços de apoio

Além de um sistema de proteção social para os mais pobres, o IE contava com serviços de apoio, tanto para os docentes (coordenação pedagógica), quanto para os alunos (orientação educacional).

Coordenação Pedagógica

Na verdade, não era um serviço de coordenação ou supervisão pedagógica como conhecemos hoje. As funções eram inicialmente exercidas pelos catedráticos, sem que houvesse uma estrutura que os coordenasse.

Eles faziam parte de um conselho, liderado pelo diretor geral, que incluía os diretores adjuntos do Jardim de Infância, Primário, Ginásio e Normal. Como se tratava de uma Escola Normal, o IE incluía todos os demais níveis de ensino, que funcionavam como “laboratórios” para formação de professores e experimentação de novas metodologias.

Os catedráticos eram responsáveis pelo planejamento e execução de uma importante estratégia de formação em serviço, denominada “centro de estudos”. Tratava-se de reuniões semanais, em que todos os professores de uma mesma disciplina analisavam temas específicos, faziam seus planejamentos e organizavam ações conjuntas. Isto demandava uma complicada estrutura de horário que, alguns anos depois, ficaria sob minha responsabilidade.

Com a conquista da destinação de um terço da carga horária dos professores para planejamento, fico pensando como uma estratégia de “centro de estudos”, concretizada através de um horário comum, poderia aumentar o impacto deste direito, na melhoria da atividade docente e da aprendizagem dos alunos.

Serviço de Orientação Educacional (SOE)

O IE dispunha de um consistente serviço de orientação educacional que funcionava como apoio socioemocional e mentoria a alunas. O atendimento era feito de forma individual ou grupal (cada turma tinha, na carga horária, um tempo destinado a discussões com sua orientadora).

Estas orientadoras tinham formação específica em cursos de pedagogia, que ofereciam três modalidades de especialização: orientação educacional, supervisão pedagógica e administração escolar.

Penso que o IE tenha sido um dos pioneiros na implantação do SOE (Serviço de Orientação Educacional.

Chamo a atenção para a função do orientador educacional, pois considero que ela poderia ser crucial no enfrentamento de alguns problemas que hoje assolam nossas escolas: violência, evasão, gravidez na adolescência, falta de perspectivas.

Com relação aos alunos, serviços de orientação educacional deveriam apoiar a construção de projetos de vida, bem como acompanhar sua execução, identificando fatores de ordem psicológica, social ou econômica que possam estar interferindo negativamente neste processo.

Por outro lado, algum tipo de serviço de apoio socio psicológico deveria ser oferecido também para professores, no que se refere aos problemas que enfrentam em sua atuação docente. É impressionante a quantidade de mestres afastados por questões de saúde mental e estresse, sem contar com o enorme índice de absenteísmo, que deve ter aí uma de suas causas.

Muito necessária, no contexto atual das escolas, dominadas pela violência, seria a atuação de profissionais com formação em gestão de conflitos, que pudessem fazer uso, não somente de medidas preventivas, como de estratégias de manejo e resolução dos conflitos, instalados entre alunos e entre estes e seus professores.

Vale destacar a importância deste serviço num contexto de pandemia. Quando a volta às aulas for possível, teremos professores e alunos altamente afetados por situações de perda, violência doméstica, abuso sexual e outros problemas socioeconômicos e emocionais que, sem dúvida, foram exacerbados pelo Covid 19.

No próximo episódio discutiremos o processo de formação inicial de professores do Ensino Fundamental, a partir da experiência do Curso Normal do Instituto de Educação. Vamos analisar também a importância do desenvolvimento de normas, valores e significados, ou seja, de uma identidade cultural positiva, cerne da formação de um educador.


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